Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo." Carlos Drumond de Andrade
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
«As recordações têm mais poesia do que as esperanças, tal como as ruínas são muito mais poéticas que o projecto de um edifício»
Jacinto Benavente, escritor espanhol que foi Prémio Nobel da Literatura em 1922
Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono.
Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.
Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.
Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol.
E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.
Mª do Rosário Pedreira
in A casa e o cheiro dos livros (Quetzal, 1996)
in Poesia reunida (Quetzal, 2012)
Do beijo fica um sabor, do sabor uma lembrança, um vento leve, uma espuma.
Do beijo fica um sereno olhar, o amor de coisas minúsculas e humildes, um pássaro que vai e vem da nossa boca às palavras. Do beijo fica, suprema, a descoberta da morte. Um vento leve, uma espuma salgada à flor dos lábios.
medos. enformam-me medos
e tanto que finjo quando os olho e lhes digo: ó sonhos! ó maravilhas!…
medo? medo até de fugir.
como num filme ou num romance se foge
num azul, numa nuvem, em duas linhas
acreditando que tudo cabe num peito
(os medos cabem na mão).
e minto. e sonho. e busco a coragem que me culpa
num peito-feito de mentiras.
sorrisos escritos. falas doces. horizontes de luxo.
em rodapé: nuvens ínvias.
e sem medo.
são os meus sonhos, braçadas no meu mar.
aleluias nos meus dias.
a mágica antes da noite.
eu nunca sonho. isto é:
eu nunca sonho quando adormeço.
dizem que não nos lembramos dos sonhos que temos quando adormecidos
mas que sonhamos sempre. sempre.
o sono e o sonho dão as mãos, dizem,
são bons amigos e nunca se esquecem um do outro.
eu? eu nunca sonho.
eu lembrar-me-ia se os tivesse.
tenho tantos acordado!
e, acaso os tivesse, adormecido, porque é que não me lembraria?
porquê gritaria? porquê me revoltaria?
(eu disse: os meus sonhos são o medo.
um disfarce, uma roupa que visto,
agasalho, pintura,
um duplo que não existe)
: durante a noite, vão de vida,
- que dizem onírica, riquíssima, mas dela não me lembro de nada,
eu tremo.
choro.
até grito.
o meu corpo tem convulsões. grita.
acho que também chora
mas quando a manhã me acorda
bem procuro nos lençóis (mas nunca encontro)
marcas dos sonhos ou das lágrimas, um qualquer sémen de dor:
os gritos nocturnos não ecoam quando o dia nasce.
sonhos? bah…
eu não sonho: grito.
não sorrio: tremo, tremelico.
e durmo. dormito no medo de acordar.
depois? volta tudo. tudo.
o medo abriga-se, mau diurno, e reinicio-me no fantasiar.
a sonhar.
vidas.
sorrisos.
nuvens sem medos e gritos
e tão, tão bonito, cuidado, credível
como não acreditar?
«amanhã! amanhã é que é!...»
e acaba-se o chorar.
o tremer.
o longo dormitar.
os dias assim são longos.
maiores que as noites (delas nada recordo).
gritos, choros, tremores,
sei-os em segunda mão. eu?
eu durmo.
eu durmo.
e da noite nada sei ou quero saber
(eu durmo, eu durmo,
e tenho um truque para quando acordar.)
e, se me apetece chorar
se desperto
se acordo
se
lavo a cara e minto,
e
e
e
eu disse: enformam-me medos.
medos.
por isso aldrabo sonhos, minto, faço versos
e esmero-me a fantasiar.
Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí
nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me
depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem
que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.
Maria do Rosário Pedreira, in 'Nenhum Nome Depois'