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Teoria do amor

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Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.

Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.

Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.

E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.

Manuel Alegre, in “Obra Poética”

Undo Ordinary - River Matthews

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River Matthews

Aniversário

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No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim mesmo, O que fui de coração e parentesco, O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino. O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas …

Relvão

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erráticos em areias de monotonias e sonâmbulos de enganos. cansados, doridos, pisando os dias, avocando passados. eis como cheguei e me viste. eis como não te vi. e devia... vi o sorriso, a flor sem imaginar o peso das folhas cheguei a crer que há Destino e nas areias do outro tempo - e as fraldas da Serra? brincaste no Relvão? vimo-nos, tocamo-nos, e fizemos a jura infantil que em adolescentes ignoramos. e neste tempo de brasa e cinzas em silêncios reatamos.
Carlos Gil

No aniversário da morte de Pablo Neruda

O teu riso Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso. Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce. A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida. Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue manchar
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca. À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora. Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o …

Baixa Laurentina

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Desde a esquina do djambu ‘té à do continental trato os passeios por tu e um parquímetro mais cómodo é meu guru pessoal Encostado e repimpão
olho a ladeira plana subindo a partir do chão de cada ponto opção dos extremos da semana
Conto os passos de quem passa passeando as dores passivas passa uma velha uva passa uma manga femeaça um ceguinho sem mordaça um vendedor de caraças e olhodoins de ameaça miram rebanhos de chivas.
Mil uvas de várias cores vão irmãs do mesmo cacho. Do branco ao tinto é um ror de perfumes. Preto é cor negro é raça dum diacho!
Avé, vida da ré pública! cruza ao gosto do gatilho numa cruz que não explica onde é que a cruz simplifica a trajectória do milho
tudo vai melhor amigo com coca cola e quejandos espetam a palha no umbigo e iniciem o mim migo ciclo de dor e castigo pescadinha ao gosto antigo memimigo memimigo entoladinhos e bambos
vou aos saldos do jònór comprar mais antipatia e uma quinhebta de dor no muro sotomaior a ajudar a rebeldia
faço mira pela estre…

Quem Pode Impedir A Primavera

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Quem pode impedir a Primavera Se as árvores se vão cobrir de flores E o homem se sentiu sorrir à Vida? Quem pode impedir a surda guerra Que vai nos campos deslocando as pedras – Mudas comparsas no ritmo das estações- E da terra inerte ergueu milhares de lanças Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite Em que a luz aquosa se derrama Como um mar infinito onde o arado Abre caminhos misteriosos à seiva inquieta! Quem pode impedir a Primavera Sa estamos em Maio e uma ternura Nos faz abrir a porta aos viandantes E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos! Quem?… Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera!
Ruy Cinatti

Trova do mês de Abril

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Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
Na esperança de um só dia.

Musa minha vem dizer o que nunca então disse
Esse morrer de viver por um dia em que se visse
um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
um só dia dos teus dias.

Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
musa minha onde contemplo os dias que se passaram
sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
a vida por um só dia.

Já muitas águas correram já muitos rios secaram
batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
Só os dias morreram em que era tão…

Mulher

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher – cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

José Carlos Ary dos Santos

Natal à Beira-Rio

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É o braço do abeto a bater na vidraça? E o ponteiro pequeno a caminho da meta! Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, A trazer-me da água a infância ressurrecta. Da casa onde nasci via-se perto o rio. Tão novos os meus Pais, tão novos no passado! E o Menino nascia a bordo de um navio Que ficava, no cais, à noite iluminado... Ó noite de Natal, que travo a maresia! Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. E quanto mais na terra a terra me envolvia E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra. Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me À beira desse cais onde Jesus nascia... Serei dos que afinal, errando em terra firme, Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
David Mourão-Ferreira