Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Soneto CXXXIII



Doces e claras águas do Mondego,
Doce repouso de minha lembrança,
Onde a comprida e pérfida esperança
Longo tempo após si me trouxe cego,
De vós me aparto, sim; porém, não nego
Que inda a longa memória, que me alcança,
Me não deixa de vós fazer mudança;
Mas quanto mais me alongo, mais me achego.
Bem poderá a Fortuna este instrumento
Da alma levar por terra nova e estranha.
Oferecido ao mar remoto, ao vento.
Mas alma, que de cá vos acompanha,
Nas asas do ligeiro pensamento,
Para vós, águas, voa, e em vós se banha.

Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Luis de Camões

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos...
E para mais me espantar...
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Luís de Camões

Lisboa - Venerando Camões


Esta postagem, foi copiada do mural de Gonçalo Capitão, maravilhoso fotógrafo, autor desta fotografia.
Os versos são "comentário" de Maria Rodrigues
Tinha que publicar aqui. Obrigada a ambos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Luis de Camões

sábado, 28 de maio de 2011

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

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