Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Povoamento

Salvador Dali
No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Saliva

Salvador Dali















saliva
quimera da larva sussurrante
sedosa maravilha do vestido
serpente louca do varal que dá cheiro de gente à roupa lavada

nómada feita à mão pelo artesão do tempo
conjuga os anos que me faltam
e dá-me uma velhice rápida depois da infância de sempre

minha alma grande
ó minha alma grande que dás dente aos ursos

sinestesia da cor da raiva
mostra ao céu a tua cor para que ele raie de vermelho no reflexo de um vulcão

há um caminho por dentro das veias que só o sangue conhece
e que vai dar direitinho à verdade mais carinhosa

soluça agora o que tens andado a dizer de mim
que eu bebo-te as lágrimas até aos olhos

serei o que quiseres como a verdade que se esconde
e darei ao futuro a magia do teu pretérito imperfeito

marca-me a lacre os lábios para não violar a carta de amor que levo na língua para ti


João Negreiros

terça-feira, 10 de julho de 2012

Necrológio dos desiludidos do amor


Salvador Dali 

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia.
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

Carlos Drummond de Andrade

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