Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

os olhos


se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero  
     porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade

e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo  
     para eles não chorarem muito

João Negreiros

Imagem de José Leão

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Saliva

Salvador Dali















saliva
quimera da larva sussurrante
sedosa maravilha do vestido
serpente louca do varal que dá cheiro de gente à roupa lavada

nómada feita à mão pelo artesão do tempo
conjuga os anos que me faltam
e dá-me uma velhice rápida depois da infância de sempre

minha alma grande
ó minha alma grande que dás dente aos ursos

sinestesia da cor da raiva
mostra ao céu a tua cor para que ele raie de vermelho no reflexo de um vulcão

há um caminho por dentro das veias que só o sangue conhece
e que vai dar direitinho à verdade mais carinhosa

soluça agora o que tens andado a dizer de mim
que eu bebo-te as lágrimas até aos olhos

serei o que quiseres como a verdade que se esconde
e darei ao futuro a magia do teu pretérito imperfeito

marca-me a lacre os lábios para não violar a carta de amor que levo na língua para ti


João Negreiros

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