Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Estou vivo e escrevo sol

O Poeta partiu, mas não nos deixará nunca!



"... a poesia é a abertura nua que não se pode delimitar, a intimidade mais pura e mais selvagem de algo que não podemos traduzir ou determinar segundo os esquemas da compreensão racionalizante. Todavia, o poema não é um enigma. Ele é evidente na sua obscuridade ou na sua claridade ofuscante. O poema é uma manifestação da origem ou, por outras palavras, da Vida absoluta, e por isso mesmo é um mistério real. O leitor, tal como o poeta, é um cego que não tem outra luz além daquela que o poema projecta sobre si."

António Ramos Rosa em "A Parede Azul" (Estudos sobre poesia e artes plásticas)


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A festa do silêncio


Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa


sábado, 20 de outubro de 2012






















Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob as montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas 

Não posso adiar este abraço 
que é uma arma de dois gumes amor e ódio 
Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação 

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa, in "Viagem através duma nebulosa" (1960), e "Antologia Poética" (D.Quixote, 2001)


mas, poeta, quem não adia? não guarda o calor da esperança numa chama imensa, avassaladora, total, na concha duma mão que ora se crispa e cerra, ora se abre tacteante, os dedos ansiosos por serem tocados e vivificarem o tal fogo mágico? quem, poeta? quem não adia o momento que acredita valer uma vida, no renovar contínuo de ilusões? da ilusão, a maior, e - concordarás, tu, poeta - a mais bela: o Amor. oh, poeta, poeta... mascaramos esses adiamentos de decisões ou mesmo de arrebatamentos. esses sim são as ilusões. as fantasias, os placebos ao duro dia-a-dia. são os adiamentos. o Amor virá. vivemos para esse momento e os séculos não têm nada a ver com isso. o tempo não conta, sabes... quando sonhas, quando te escreves em poema, há relógio sombra ou sol que te marque o tempo? um tempo que só é válido para acreditar na tal aurora que nos renascerá? que nos salvará. não mintas, poeta. todos adiamos. mesmo quando mentimos: sabes que mentimos, não sabes? quando, no desespero das mãos frias, dos dedos torpes por ausências que os iluminem, acreditamos em mentiras que não precisam de séculos para nos serem devolvidas, esbofeteando-nos. (e dói. dói tanto.) quando os medos nos mentem e nos tornam falsos clarividentes adictos a compromissos, acreditando que o tal grito sufocar-se-á e o peso nas costas desaparecerá se sacrificarmos a liberdade de se ser pertença ao engano da conciliação, dos conscienciosos e frios cálculos acerca dum amanhã que ainda não nasceu pois vive-se é hoje, os dedos estendem-se no vazio é hoje, é hoje, e não há bafos de seguranças que os aqueçam entre sol e lua, toquem-nos como eles anseiam e merecem ser tocados: a poesia do amor. o amor, poeta. o amor. e, de bom grado, adiamos o presente quando se acredita no futuro. sempre é sempre, sabias? sabes sim: és poeta e a eternidade é a caligrafia do teu tempo. adeus, poeta, não te incomodo mais. eu adio-me na poesia. por exemplo na tua. eu adiei-me e detesto a minha (detesto-me), só sei gostar de poesia alheia enquanto o tempo não chega, não vem, e moro no frio desta linha seca que me cruza a palma da mão, a tal que (te) espera.

Publicada por Carlos Gil AQUI

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Porque não soube merecer

Vénus Deitada  de João Cutileiro

Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que o sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi

não sei quem sou 



António Ramos Rosa

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Escrevo-te com o fogo e a água

O Poeta português António Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924.


Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa

quarta-feira, 16 de março de 2011

Não Posso Adiar o Amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

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