Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.
Define-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
As vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.
Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta..
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento,
querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre.
Pablo Neruda
Palavras ditas ...
Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
quinta-feira, 30 de junho de 2011
quarta-feira, 29 de junho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
Dez chamamentos ao amigo
I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.
III
Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido.
IV
Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.
V
Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.
VI
Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?
VII
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
VIII
De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.
IX
Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobreexistindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.
X
Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinqüenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.
Hilda Hilst
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.
III
Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido.
IV
Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.
V
Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.
VI
Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?
VII
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
VIII
De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.
IX
Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobreexistindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.
X
Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinqüenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.
Hilda Hilst
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Lua Nova
Meu novo quarto
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.
Depois de dez anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mônstruo incruento das madrugadas.
Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
- Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.
Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova
Manoel Bandeira
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.
Depois de dez anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mônstruo incruento das madrugadas.
Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
- Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.
Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova
Manoel Bandeira
domingo, 26 de junho de 2011
Nothing More
My friend I know you've suffered,
Although you are still young.
Why was it you who'd not take help
From anyone?
Oh it's true, it's very true, he said,
Some hard times I have known,
But I have always overcome them
On my own.
Oh the pearls that you hold in your hand
They are beautiful to see,
But you show them not to anyone,
Not even me.
For you are like the others, he said.
I never can be sure
That you wish just to see the pearls
And nothing more.
Why can you not see reason?
Our lives they are not long.
Why can you take no time
To tell us all we're wrong?
My tune it does not change, he said,
And neither does your song,
And words I use them rarely
When I'm all alone.
sábado, 25 de junho de 2011
25 de Junho
Nos 36 anos de independência de Moçambique, "roubo" as palavras de amor de Carlos Gil à sua (e sempre nossa) cidade, seja ela LM ou Maputo ...
Obrigada, mais uma vez Carlos, por nos dares a maravilhosa poesia das (tuas) palavras.
Palavras cruzadas, emoções baralhadas
Olá, boa tarde. Sou o Carlos Gil e vou falar-vos de amor. Amor a uma cidade.
É comum explicar o amor a África por aqueles que lá viveram, afirmando que quem foi por ela beijado nunca esquece esse carinho.
Eu não fui beijado, foi mais profundo. Fui seduzido, e desse amar violento a uma cidade guarda a memória carícias de que não me evado nem emigro, é tão envolvente como o é uma paixão.
E que se vive no remanso do silêncio, até um dia em que a caneta se torna insuportavelmente lenta para contar. Em que se pára, o olhar preso na tristeza de tão pouco teclado para tanto que há para exprimir e compreender…
A minha cidade… Pérola do Índico, minha princesa … … Namorei-a, amei-a à exaustão, e emocionalmente ainda me sinto exaurido pela separação.
-/-
Divorciamo-nos há trinta e tal anos atrás. Um amor adolescente, um namoro em que as mãos dadas e as carícias trocadas fizeram-me suspirar por mais, acasalamento e de papel passado uma tarde rabiscado numa avenida que desce a colina e beija-a no ventre, Baixa da cidade, onde o Homem ergueu orgulhosos trinta e tal andares, para dizer à linha da paisagem, em grito de posse para a amante fiel e tolerante que tudo lhe dá e permite, que a sua ambição é grande, alta, excessivamente alta.
Antes do divórcio que desalinhou o nosso entrelaçado de afagos, eu e ela, musa cidade, namoramos sem fim nem jeito nas esquinas que me eram familiarmente sensuais, esquecidas as convenções nas partilhas de amor que trocámos ao seu sol, nesse sopro quente que clamava por quinhões de emoções que não lhe regateámos.
Era um amor doce, beijos sem fim trocados na suavidade da brisa que subia da baía e amenizava fins de tarde tropicais, outras vezes impetuosos no travo de sal das portas do mar onde nos sentávamos, juntos, próximos, amantes, jurando cumplicidades e sorrindo ao viver.
Sim, estávamos apaixonados e o nosso namoro era tão lindo como o amor que líamos nos nossos olhos quando nos encarávamos e sorríamos, enlevados na nossa paixão.
E, cá de longe, do tempo das cãs e das memórias, deixo soar o meu enamoramento eterno e escrevo-lhe cartas de amor e de desejo sem fim.
Mas igualmente me interrogo:
Perdoar-me-á algum dia?
As esquinas recordar-me-ão?
Faremos amor novamente, pois o que tínhamos era tão belo e intenso que não podia ser senão uma posse amorosa, contínua?
-/-
Hoje, os tais trinta e tal anos depois, mais coisa menos arrufo, ainda não gosto de falar no divórcio. Prefiro afagar em mim o enlevo das carícias da memória, as mãos dadas, os suspiros e as juras que trocávamos.
Compreendes-me, querida?
-/-
Como dizem os antigos e que muito conhecem destas coisas dos amores perdidos, não há verdades únicas nas separações, e é difícil arrolar razões e encontrar culpas exclusivas quando os dedos se separam, e deixa de se sentir o conforto da sua carícia. Quando o romance termina e desocupam-se os dias de calores como aqueles em que o nosso namoro foi farto, quando sobrevém às noites quentes o frio da solidão.
Não, nem palavras de traição são alçáveis, excessivas na injustiça de tanta letra dura para contar das lágrimas, o tempo que passa, a separação. Aconteceu, os deuses entenderam que o nosso romance precisava de mais provas, outro fogo que não o que nos aquecia na ânsia dos jovens amantes, e ele soçobrou; o nosso casamento, pueril, reprovou-se a tal prova e chumbou o enlace que se jurara eterno.
Conheci outras cidades e outros leitos, mais amores, e valha a verdade em contar que, neles, também fui feliz. Noutros colos e noutras ruas também amei e o meu sorriso surgiu natural ao acariciar seios-colinas, nas águas doutras praias e na sombra doutras árvores, na crosta urbana doutras terras, também ternas na sua secular carícia, sapiente, amei e fui feliz.
Mas há estes momentos de melancolia em que olho o passado e recordo o primeiro amor, e cai-me uma lágrima de saudade.
-/-
Hoje, vida feita e semi-gasta, com tanto balanço encerrado e de contas ajustadas, há em mim uma janelinha que não se cerra: abro o peito e espreito, e vejo-te a ti minha primeira amada. Vejo-te, minha cidade.
Se me olho ao espelho e tento ler as rugas, decifrar as cãs, desisto de nelas contar as desilusões, e deixo o olhar perder-se no brilho dos olhos quando a memória em ternura te contempla, as avenidas, o caniço, as acácias tão rubras como quente era o nosso enlevo.
Fazes-me falta
neste Outono da vida, meu amor. Sinto a falta do teu bafo quente, o brilho do teu sorriso, da magia que era acordar de mãos em ti enlaçadas e acreditando na eternidade da nossa paixão.
Desculpa-me pelo que errei, pelas minhas culpas na nossa separação. Desculpa-me. Porque ainda te amo. Pelo tempo passam outras que me amam e me tratam bem, mas confesso-te em letra de lei que, em mim, ainda não aconteceu amor como o nosso primeiro. Desculpa-me meu amor, Princesa, minha cidade.
-/-
Termino com um poema porque ninguém é mais universal que um poeta. Nuno Júdice:
Mas eu sabia tudo isso. Um poema faz-se para
dizer o que não se soube evitar, para substituir
confissões e decepções, para transformar em algo
de belo o que poderia conduzir à depressão,
ao fim de um mundo. Na verdade, há
ou não espaço para esta inquietação, para
a censura, a suspeita de que algo poderia ser
de outro modo, como se cada um de nós pudesse
ter o seu próprio caminho? Falo contigo: e
tu ouves-me, não me ouvindo, como eu te ouço
sem saber se é o que eu quero ouvir que vem
das tuas frases, ou se dizes o contrário do que
sentes para que eu sinta a verdade do que nenhum
de nós sente - a indiferença, a brancura da
emoção, um desejo de ruptura... Como se o amor
acabasse no meio do que não começou; ou
a distância pudesse apagar o que não tem fim.
Texto integral da comunicação de Carlos Gil ontem, 24-06-2011, no "IV Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora" , realizado no auditório da junta de freguesia de S.Domingos de Rana, em Carcavelos.
Obrigada, mais uma vez Carlos, por nos dares a maravilhosa poesia das (tuas) palavras.
Palavras cruzadas, emoções baralhadas
Olá, boa tarde. Sou o Carlos Gil e vou falar-vos de amor. Amor a uma cidade.
É comum explicar o amor a África por aqueles que lá viveram, afirmando que quem foi por ela beijado nunca esquece esse carinho.
Eu não fui beijado, foi mais profundo. Fui seduzido, e desse amar violento a uma cidade guarda a memória carícias de que não me evado nem emigro, é tão envolvente como o é uma paixão.
E que se vive no remanso do silêncio, até um dia em que a caneta se torna insuportavelmente lenta para contar. Em que se pára, o olhar preso na tristeza de tão pouco teclado para tanto que há para exprimir e compreender…
A minha cidade… Pérola do Índico, minha princesa … … Namorei-a, amei-a à exaustão, e emocionalmente ainda me sinto exaurido pela separação.
-/-
Divorciamo-nos há trinta e tal anos atrás. Um amor adolescente, um namoro em que as mãos dadas e as carícias trocadas fizeram-me suspirar por mais, acasalamento e de papel passado uma tarde rabiscado numa avenida que desce a colina e beija-a no ventre, Baixa da cidade, onde o Homem ergueu orgulhosos trinta e tal andares, para dizer à linha da paisagem, em grito de posse para a amante fiel e tolerante que tudo lhe dá e permite, que a sua ambição é grande, alta, excessivamente alta.
Antes do divórcio que desalinhou o nosso entrelaçado de afagos, eu e ela, musa cidade, namoramos sem fim nem jeito nas esquinas que me eram familiarmente sensuais, esquecidas as convenções nas partilhas de amor que trocámos ao seu sol, nesse sopro quente que clamava por quinhões de emoções que não lhe regateámos.
Era um amor doce, beijos sem fim trocados na suavidade da brisa que subia da baía e amenizava fins de tarde tropicais, outras vezes impetuosos no travo de sal das portas do mar onde nos sentávamos, juntos, próximos, amantes, jurando cumplicidades e sorrindo ao viver.
Sim, estávamos apaixonados e o nosso namoro era tão lindo como o amor que líamos nos nossos olhos quando nos encarávamos e sorríamos, enlevados na nossa paixão.
E, cá de longe, do tempo das cãs e das memórias, deixo soar o meu enamoramento eterno e escrevo-lhe cartas de amor e de desejo sem fim.
Mas igualmente me interrogo:
Perdoar-me-á algum dia?
As esquinas recordar-me-ão?
Faremos amor novamente, pois o que tínhamos era tão belo e intenso que não podia ser senão uma posse amorosa, contínua?
-/-
Hoje, os tais trinta e tal anos depois, mais coisa menos arrufo, ainda não gosto de falar no divórcio. Prefiro afagar em mim o enlevo das carícias da memória, as mãos dadas, os suspiros e as juras que trocávamos.
Compreendes-me, querida?
-/-
Como dizem os antigos e que muito conhecem destas coisas dos amores perdidos, não há verdades únicas nas separações, e é difícil arrolar razões e encontrar culpas exclusivas quando os dedos se separam, e deixa de se sentir o conforto da sua carícia. Quando o romance termina e desocupam-se os dias de calores como aqueles em que o nosso namoro foi farto, quando sobrevém às noites quentes o frio da solidão.
Não, nem palavras de traição são alçáveis, excessivas na injustiça de tanta letra dura para contar das lágrimas, o tempo que passa, a separação. Aconteceu, os deuses entenderam que o nosso romance precisava de mais provas, outro fogo que não o que nos aquecia na ânsia dos jovens amantes, e ele soçobrou; o nosso casamento, pueril, reprovou-se a tal prova e chumbou o enlace que se jurara eterno.
Conheci outras cidades e outros leitos, mais amores, e valha a verdade em contar que, neles, também fui feliz. Noutros colos e noutras ruas também amei e o meu sorriso surgiu natural ao acariciar seios-colinas, nas águas doutras praias e na sombra doutras árvores, na crosta urbana doutras terras, também ternas na sua secular carícia, sapiente, amei e fui feliz.
Mas há estes momentos de melancolia em que olho o passado e recordo o primeiro amor, e cai-me uma lágrima de saudade.
-/-
Hoje, vida feita e semi-gasta, com tanto balanço encerrado e de contas ajustadas, há em mim uma janelinha que não se cerra: abro o peito e espreito, e vejo-te a ti minha primeira amada. Vejo-te, minha cidade.
Se me olho ao espelho e tento ler as rugas, decifrar as cãs, desisto de nelas contar as desilusões, e deixo o olhar perder-se no brilho dos olhos quando a memória em ternura te contempla, as avenidas, o caniço, as acácias tão rubras como quente era o nosso enlevo.
Fazes-me falta
neste Outono da vida, meu amor. Sinto a falta do teu bafo quente, o brilho do teu sorriso, da magia que era acordar de mãos em ti enlaçadas e acreditando na eternidade da nossa paixão.
Desculpa-me pelo que errei, pelas minhas culpas na nossa separação. Desculpa-me. Porque ainda te amo. Pelo tempo passam outras que me amam e me tratam bem, mas confesso-te em letra de lei que, em mim, ainda não aconteceu amor como o nosso primeiro. Desculpa-me meu amor, Princesa, minha cidade.
-/-
Termino com um poema porque ninguém é mais universal que um poeta. Nuno Júdice:
Mas eu sabia tudo isso. Um poema faz-se para
dizer o que não se soube evitar, para substituir
confissões e decepções, para transformar em algo
de belo o que poderia conduzir à depressão,
ao fim de um mundo. Na verdade, há
ou não espaço para esta inquietação, para
a censura, a suspeita de que algo poderia ser
de outro modo, como se cada um de nós pudesse
ter o seu próprio caminho? Falo contigo: e
tu ouves-me, não me ouvindo, como eu te ouço
sem saber se é o que eu quero ouvir que vem
das tuas frases, ou se dizes o contrário do que
sentes para que eu sinta a verdade do que nenhum
de nós sente - a indiferença, a brancura da
emoção, um desejo de ruptura... Como se o amor
acabasse no meio do que não começou; ou
a distância pudesse apagar o que não tem fim.
Texto integral da comunicação de Carlos Gil ontem, 24-06-2011, no "IV Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora" , realizado no auditório da junta de freguesia de S.Domingos de Rana, em Carcavelos.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Ser que nunca fui
Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
no arremesso da esperança
Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse : o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais
Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava
Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente
Mia Couto
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
no arremesso da esperança
Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse : o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais
Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava
Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente
Mia Couto
quinta-feira, 23 de junho de 2011
La Solitude
Je suis d'un autre pays que le votre, d'un autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse.
Je ne suis plus de chez vous, j'attends des mutants.
Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure.
Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules.
Mais, la solitude.
Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis.
Ils ont été coulés demain matin.
Si vous n'avez pas dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée,
il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour.
Et la solitude.
Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues,
soient aussi imperturbables que les feux d'arret ou de voie libre.
Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez etre votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau.
Et pourtant la solitude.
Le désespoir est une forme supérieure de la critique.
Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur",
les mots que vous employez n'étant plus "les mots" mais une sorte de conduit à travers lequels, les analphabètes se font bonne conscience.
Mais la solitude.
Le Code civil nous en parlerons plus tard.
Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable.
Je voudrais mesurer vos danaïdes démocraties.
Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit,
le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité.
La lucidité se tient dans mon froc...
Léo Ferré
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Bem, Hoje Que Estou Só e Posso Ver
Bem, hoje que estou só e posso ver
Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto se o for, serei em vão,
Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.
Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.
Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer cousa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para o lembrar bem.
Fernando Pessoa
Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto se o for, serei em vão,
Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.
Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.
Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer cousa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para o lembrar bem.
Fernando Pessoa
terça-feira, 21 de junho de 2011
Poema à Mulher de Signo Caranguejo (Câncer)
Você nunca avance
Em uma mulher de câncer.
Seu planeta é a lua
E a lua, é sabido
Só vive na sua.
É muito apegada
E quando pegada
Pega da pesada.
É a mulher que ama
Com muito saber
No tocante à cama
Não sei lhe dizer...
Vinicius de Moraes
Caranguejo (Câncer) - de 21 de Junho a 22 de Julho
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