Fomos visitar-te com a alegria natural
com que se visitam os amigos.
Com a combinação prévia de não haver drama.
Tudo seria natural.
As recordações comuns do tempo em que o tempo não acabava,
em que o tempo tinha tempo
e era nosso.
Entraste e, nos teus olhos, o tempo tinha desaparecido
e vagueavas sózinho nas memórias que eram tuas ...
Nós não estávamos lá
não te pertenciamos
O tempo acabou!
Maria Mendes
Palavras ditas ...
Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
domingo, 30 de janeiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Faz-me o favor...
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Voar
cruzaremos as praças de Viena
como corremos nas areias das praias:
velozes, sedentos, famintos dos tempos antes dos nadas.
e em Dingle o olhar parará, fixo no mar e no verde irlandês
de gaélicas folhas molhadas em saudades.
tal como Veneza. tal como o Egipto,
as míticas ameijoas nas Caraíbas e o sorriso dum beijo
trocado num parque de estacionamento
onde estacionamos o tempo e iniciamos o viajar.
a regra é única, fácil,
e rejubila de alegria o gordinho:
viver cada pedaço de noite anestesiante
entediante, triste,
com a cancela aberta, lá.
onde Dingle, Kiribati, Viena
Veneza e tudo se vizinham,
mesmo que nesse condomínio Toutatis
não administre as zonas comuns e tudo pareça tão distante
como uma casa de sonho na Lua.
(predisse uma cigana que nunca vi.
mas que se a consultássemos
e nos olhasse os traços manos diria:
corram! corram! existe Kiribati!)
cruzaremos os tempos que faltam
na correria de encontrar e ver
os tesouros que há no mundo.
e, num parque de estacionamento,
um jardim com um moinho,
um café com janelas em tulipas e recheio de maçãs
tudo entrevimos.
e fugimos das terras miúdas
as noites terríveis, a chuva
a dor de não-viver vivendo
a mentira que não se sonhou.
e tudo, tudo isto, será de mãos-dadas
que o correr só tem graça
os fumos enlaçados neste cigarro
que queima, arde, e num sopro fez uma nuvem
igual à de quando acreditávamos
que o mundo, em todo o mundo havia Kiribatis.
ah a racionalidade, ah as noites tristes...
ah a Lua tão distante e esta gravidade imensa
que tolhe os dias e alonga a ruga
e chove, chove sempre...
Toutatis é mau, não olha e vê qu'a cancela aberta
(tal como predisse uma cigana)
é ponto de partida e meta
é o estado natural dela.
igual a Dingle e Gallway
Salzburg, Viena, o Egipto e o chocolate veneziano.
esta correria ganha no instante que nos cruzamos
e lemos as vidas, nuvens gémeas.
falta um raio, um chispe, tiro de partida, iluminação.
falta correr e cruzarmos a vida igual à que sonhamos,
gigante, este cigarro ardido, a mão que se enlaça
fazê-la areal ou calçada
nacos concretos de dias, regresso ao bonito viver.
tudo existe - a cigana predisse
quando nos olhou as mãos e a cancela,
elas dadas, ela aberta
e os gordinhos iguais, encolhidos,
ansiosos dum vizinho
que olhe e veja, conheça as nuvens
e a aurora do seu nascer.
velozes, sedentos, famintos
dos tempos antes dos nadas.
mas Kiribati ainda existe aos que acreditam
na magia das Mãos Dadas.
Toutatis? não tem mais que sorrir!...
Carlos Gil
como corremos nas areias das praias:
velozes, sedentos, famintos dos tempos antes dos nadas.
e em Dingle o olhar parará, fixo no mar e no verde irlandês
de gaélicas folhas molhadas em saudades.
tal como Veneza. tal como o Egipto,
as míticas ameijoas nas Caraíbas e o sorriso dum beijo
trocado num parque de estacionamento
onde estacionamos o tempo e iniciamos o viajar.
a regra é única, fácil,
e rejubila de alegria o gordinho:
viver cada pedaço de noite anestesiante
entediante, triste,
com a cancela aberta, lá.
onde Dingle, Kiribati, Viena
Veneza e tudo se vizinham,
mesmo que nesse condomínio Toutatis
não administre as zonas comuns e tudo pareça tão distante
como uma casa de sonho na Lua.
(predisse uma cigana que nunca vi.
mas que se a consultássemos
e nos olhasse os traços manos diria:
corram! corram! existe Kiribati!)
cruzaremos os tempos que faltam
na correria de encontrar e ver
os tesouros que há no mundo.
e, num parque de estacionamento,
um jardim com um moinho,
um café com janelas em tulipas e recheio de maçãs
tudo entrevimos.
e fugimos das terras miúdas
as noites terríveis, a chuva
a dor de não-viver vivendo
a mentira que não se sonhou.
e tudo, tudo isto, será de mãos-dadas
que o correr só tem graça
os fumos enlaçados neste cigarro
que queima, arde, e num sopro fez uma nuvem
igual à de quando acreditávamos
que o mundo, em todo o mundo havia Kiribatis.
ah a racionalidade, ah as noites tristes...
ah a Lua tão distante e esta gravidade imensa
que tolhe os dias e alonga a ruga
e chove, chove sempre...
Toutatis é mau, não olha e vê qu'a cancela aberta
(tal como predisse uma cigana)
é ponto de partida e meta
é o estado natural dela.
igual a Dingle e Gallway
Salzburg, Viena, o Egipto e o chocolate veneziano.
esta correria ganha no instante que nos cruzamos
e lemos as vidas, nuvens gémeas.
falta um raio, um chispe, tiro de partida, iluminação.
falta correr e cruzarmos a vida igual à que sonhamos,
gigante, este cigarro ardido, a mão que se enlaça
fazê-la areal ou calçada
nacos concretos de dias, regresso ao bonito viver.
tudo existe - a cigana predisse
quando nos olhou as mãos e a cancela,
elas dadas, ela aberta
e os gordinhos iguais, encolhidos,
ansiosos dum vizinho
que olhe e veja, conheça as nuvens
e a aurora do seu nascer.
velozes, sedentos, famintos
dos tempos antes dos nadas.
mas Kiribati ainda existe aos que acreditam
na magia das Mãos Dadas.
Toutatis? não tem mais que sorrir!...
Carlos Gil
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa ás verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa ás verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A Vida
A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;
a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;
a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Poema à Mulher de Signo Aquário
Se o que se quer é a boa esposa
A aquariana pousa.
Se o que se quer é uma outra coisa
A aquariana ousa.
Se o que se quer é muito amor
A aquariana
É a mulher macho sim senhor.
Porém não são possessivas
Nem procuram dominar
Ou são meigas e passivas
Ou botam para quebrar.
Aquário - de 20 de Janeiro a 18 de Fevereiro
Espero
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
Sophia de Mello Breyner Andresen
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
matiné de carinho
hoje queria ir ver um filme antigo,
tão antigo como nós.
do tempo em que o cinema éra-nos especial
e escondíamos as lágrimas que se nos colavam como feitiço.
e ríamos tanto, tanto, antes e depois do filme
que o seu bilhete era a porta íntima do mundo.
hoje queria estar contigo,
e voltar a ver os nossos filmes um por um.
as lágrimas, o riso, a centelha
de te tocar no braço e acreditar que há momentos
como o princípio do mundo.
do tempo em que o cinema éra-nos especial
e escondíamos as lágrimas que se nos colavam como feitiço.
e ríamos tanto, tanto, antes e depois do filme
que o seu bilhete era a porta íntima do mundo.
hoje queria estar contigo,
e voltar a ver os nossos filmes um por um.
as lágrimas, o riso, a centelha
de te tocar no braço e acreditar que há momentos
como o princípio do mundo.
Carlos Gil
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Tempo de Travessia
Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado,
para sempre, à margem de nós mesmos.
Fernando Pessoa
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado,
para sempre, à margem de nós mesmos.
Fernando Pessoa
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