Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Palavras em Negro

Antes de tu chegares com as caravelas
as missangas a cruz
eu tinha o meu ritmo sereno de crescer
lento como o Sol induzia
e eu falava

Contigo aprendi a comerciar
a vender os meus irmãos
que as caravelas levaram
deixando um rasto de progresso
um vazio e a cruz
e eu calei-me

Nas savanas em que eu caçava
descobri que um pala-pala era pouco
para quem tanta fome tinha
e matava vinte por prazer
e eu calei-me

Foi também contigo que aprendi
que as minhas mulheres eram tuas
sempre que o querias
tive filhos mulatos
e eu calei-me

Quando aprendi a tua língua
(pois tu não aprendias a minha)
descobri que ao dizer não
as bombardas falavam muito alto
e eu calei-me

Nas tuas guerras fui teu soldado
cobrei-te os meus impostos e fui teu cipaio
- até brinquei com os teus filhos
mas na tua mesa nunca houve mais um lugar
e eu calei-me

Prendeste os meu chefes
deste-me administradores
o prazo e o chibalo
o rand e o algodão
e eu calei-me

E quando quis falar
voltar a ser independente
disseste-me não em balas que senti
herdeiras das cidades que te construí

devolvi-tas
e, finalmente
tu calaste-te e eu falei.

Tanto que eu contigo aprendi...

José Alberto Sitoe

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Eu nunca guardei rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Amor é o Amor

O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?

Alexandre O'Neill

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Análise

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A mancha das palavras molhadas

Como é triste a gota que não encontra o seu rio,
onde se diluir na mecânica do encantamento!...
Morre numa qualquer beira, numa sôfrega areia
que lhe aspira o translúcido da existência.

Como as que deslizam para este alfabeto mecanizado
incapazes de premir o meu sentimento
folha aberta e só manchada pelas lágrimas do meu tormento...
"Ardo em águas de mim, afogo-me em fogo por ti..."

Nada pode sobreviver a trocadilhos tão ásperos.

Irei diluir-me como a gota perdida
longe do caudal que lhe garante a vida.
Uma areia densa e seca aspirará as minhas folhas escritas
e a terrível sede branca das que nunca escrevi.

Dizem que permanecemos na memória. Que a gota, minúscula,
ocasionalmente visita os rostos que amou.
Tem a força de inundar o peito.
A poesia das palavras dilui-se na corrente selvagem
sem que as margens lhe dêem liberdade para dizê-la
com o carinho indelével das fundamentais.

E antes que a areia da vida delas faça mancha molhada,
poemas, poemas e quase mais nada,
mergulho na tristeza da gota que desliza na folha
sem atingir a beleza perene da eternidade.

Carlos Gil

sábado, 5 de fevereiro de 2011

sms matutino

Não está sol.
Ainda saberemos inventá-lo?
Como quando eu e tu
éramos o centro do mundo
e tinhamo-lo prisioneiro do olhar.

A noite deu-te a lua,
a mim roubou-me a magia
de acreditar qu'esse sol
(o teu olhar)
me incendearia eternamente.

Foi quando o meu escureceu
e comecei a odiar poesia.


Carlos Gil

Rosto

Nunca vieste
quando o desejo
fazia um entalhe
de sofrimento e apelo
na polpa, madura, do dia.

Nunca vieste
quando um golpe de luar
abria ao lado do meu corpo
um lençol, fresco, para acolher-te.

A tua boca não prendeu
a flor dos meus lábios.
Nunca calei no teu beijo
a indizível palavra.

Nunca vieste.

Respirei-te no sonho.
A morte terá o teu rosto desconhecido.

Luísa Dacosta

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Naturalidade

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável ... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.


Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

Rui Knopfli

domingo, 30 de janeiro de 2011

Não quero

Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.

Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa conosco,
Que passamos com ela.

Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.

Ricardo Reis

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