Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade

quarta-feira, 14 de maio de 2014

um anjo erra (o amor confuso)


Um anjo erra
nos teus olhos diurnos

humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas

místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas

cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala

ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida

colocamos um sonho
em cada nicho

e no círculo formado pelas nossas bocas
subentende-se com verve
a língua.

Sebastião Alba


Imagem daqui, de Raul Ferreira Rocha

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Como se te perdesse


Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.

Hilda Hilst

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Lembrando ...


Morte
Término da vida, cessação
De funções orgânicas vitais.
Um nada, vazio, escuridão,
Sumiço d’amigos e rivais.
Desaparecimento do ser.
A negação do querido ente.
Eliminação do pretender
Ter existência permanente.

Expedito Ramalho de Alencar

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Primavera de Almada Negreiros


José Sobral de Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe a 7 de Abril de 1893.
Faz parte da 1ª geração de modernistas portugueses dedicado à pintura, desenho e escrita .



O sol vae esmolando os campos com bôdos de oiro.

A pastorinha aquecida vae de corrida a mendigar a sombra do chorão corcunda, poeta romantico que tem paixão p'la fonte.

Espreita os campos, e os campos despovoados dão-lhe licença para ficar núa. Que leves arrepios ao refrescar-se nas aguas! Depois foi de vez, meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva, a seccar-se ao sol. Mas o vento que vinha de lá das Azenhas-do-Mar, trazia peccados
comsigo. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor Morgado. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira. Fechou os olhos a cegar-se do mau pensamento, mas foi lembrar-se do
proprio Senhor Morgado á meia noite ao entrar na adega. Abanou a fronte para lhe fugir o peccado, mas foi dar comsigo na sachristia a deixar o Senhor Prior beijar-lhe a mão, e depois a testa... porque Deus é bom e perdôa tudo... e depois as faces e depois a bocca e depois... fugiu... Não devia ter fugido... E agora o moleiro, lá no arraial, bailando com ella e sem querer, coitado, foi ter ao moinho ainda a bailar com ella. E lembra-se ainda - sentada na grande arca,
e mãos alheias a desapertarem-lhe as ligas e o corpête, emquanto ouve a historia triste do moinho com cincoenta malfeitores... Quer lembrar-se mais, que seja peccado! quer mais recordações do moinho, mas não encontra mais.

Ah! e o boieiro quando, a guiar a junta, topou com ella e lhe perguntou se vira por acaso uma borboleta branca a voar a muito, uma borboleta muito bonita! Que não, que não tinha visto; mas o boieiro desconfiado foi procurando sempre, e até mesmo por debaixo dos vestidos.

Como desejava poder ir com todos!

Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar.

Teria a borbolêta branca fugido para dentro d'ella?



Almada Negreiros



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Salgueiro Maia

No 22º aniversário da partida de Salgueiro Maia



Ficaste na pureza inicial 
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.


Manuel Alegre

quinta-feira, 20 de março de 2014

Poema


Alice Vieira nasceu em Lisboa no ano de 1943. Hoje comemora 71 anos.
É jornalista e escritora, considerada uma das mais importantes na área da literatura infanto-juvenil, sendo que não é apenas autora deste género de prosa.




Envelhecemos com as palavras ou elas
connosco
digo amor e já não corro precipitadamente
pela escadaria de pedra com enormes
anjos de facas sobre as nossas cabeças
que me levava a ti nas manhãs em que o desejo
(a que evidentemente dávamos
outro nome mais brando ) 
e nos rebentava o corpo como o pólen
das árvores na primavera

e ainda não sabíamos sequer
que transportávamos em nós
a doença incurável das noites que não iriam ser as que esperávamos

já não sigo no teu corpo os sulcos
largados pelos meus dedos na hora apressada do regresso a casa
nem abafo na amurada de todas as partidas
o gesto com que não soube prender a tua fuga

digo amor e estão muito longe
as maneiras subtis de te levar escondido
entre cadernos e camélias e dilacerados sorrisos 
de fim de festa 

pior do que isso:

nem sequer preciso de dizer amor
para que ele se desfaça nos terrenos baldios
do meu sangue onde os teus passos
durante tantos anos
o procuraram

-- e ilumine as horas em que o eco da tua voz
traz consigo as espadas que os anjos de pedra
então nos apontavam"

Alice Vieira

domingo, 16 de março de 2014

O Livro dos Amantes




Natália de Oliveira Correia morreu em Lisboa há 21 anos


I
Glorifiquei-te no eterno. 
Eterno dentro de mim 
fora de mim perecível. 
Para que desses um sentido 
a uma sede indefinível. 

Para que desses um nome 
à exactidão do instante 
do fruto que cai na terra 
sempre perpendicular 
à humidade onde fica. 

E o que acontece durante 
na rapidez da descida 
é a explicação da vida. 

II 

Harmonioso vulto que em mim se dilui. 
Tu és o poema 
e és a origem donde ele flui. 
Intuito de ter. Intuito de amor 
não compreendido. 
Fica assim amor. Fica assim intuito. 
Prometido. 

III 

Príncipe secreto da aventura 
em meus olhos um dia começada e finita. 
Onda de amargura numa água tranquila. 
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta. 
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem 
reacendendo em cadência e em passagem 
a lua que trazia e que apagou. 

IV 

Dá-me a tua mão por cima das horas. 
Quero-te conciso. 
Adão depois do paraíso 
errando mais nítido à distância 
onde te exalto porque te demoras. 


Toma o meu corpo transparente 
no que ultrapassa tua exigência taciturna 
Dou-me arrepiando em tua face 
uma aragem nocturna. 

Vem contemplar nos meus olhos de vidente 
a morte que procuras 
nos braços que te possuem para além de ter-te. 

Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia. 
Fica naquele gosto a sangue 
que tem por vezes a boca da inocência. 

VI 

Aumentámos a vida com palavras 
água a correr num fundo tão vazio. 
As vidas são histórias aumentadas. 
Há que ser rio. 

Passámos tanta vez naquela estrada 
talvez a curva onde se ilude o mundo. 
O amor é ser-se dono e não ter nada. 
Mas pede tudo. 

VII 

Tu pedes-me a noção de ser concreta 
num sorriso num gesto no que abstrai 
a minha exactidão em estar repleta 
do que mais fica quando de mim vai. 

Tu pedes-me uma parcela de certeza 
um desmentido do meu ser virtual 
livre no resultado de pureza 
da soma do meu bem e do meu mal. 

Deixa-me assim ficar. E tu comigo 
sem tempo na viagem de entender 
o que persigo quando te persigo. 

Deixa-me assim ficar no que consente 
a minha alma no gosto de reter-te 
essencial. Onde quer que te invente. 

VIII 

Eis-me sem explicações 
crucificada em amor: 
a boca o fruto e o sabor. 

IX 

Pusemos tanto azul nessa distância 
ancorada em incerta claridade 
e ficamos nas paredes do vento 
a escorrer para tudo o que ele invade. 

Pusemos tantas flores nas horas breves 
que secam folhas nas árvores dos dedos. 
E ficámos cingidos nas estátuas 
a morder-nos na carne dum segredo. 

Natália Correia, in "Poemas" 1955

quarta-feira, 12 de março de 2014

Ya eres mía ... Soneto LXXXI


Ya eres mía. Reposa con tu sueño en mi sueño.
Amor, dolor, trabajos, deben dormir ahora.
Gira la noche sobre sus invisibles ruedas
Y junto a mí eres pura como el ámbar dormido.

Ninguna más, amor, dormirá con mis sueños.
Irás, iremos juntos por las aguas del tiempo.
Ninguna viajará por la sombra conmigo,
Sólo tú, siempreviva, siempre sol, siempre luna.

Ya tus manos abrieron los puños delicados
Y dejaron caer suaves signos sin rumbo,
Tus ojos se cerraron como dos alas grises,

Mientras yo sigo el agua que llevas y me lleva:
La noche, el mundo, el viento devanan su destino,
Y ya no soy sin ti sino sólo tu sueño.

Pablo Neruda

Imagem de origem desconhecida

terça-feira, 11 de março de 2014

Alheamento


Meu corpo estiraçado, lânguido, ao logo do leito. 

O cigarro vago azulando os meus dedos. 

O rádio... a música... 

A tua presença que esvoaça 
em torno do cigarro, do ar, da música... 

Ausência!, minha doce fuga! 

Estranha coisa esta, a poesia, 
que vai entornando mágoa nas horas 
como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros 
duma janela, 

numa tarde vaga, vaga... 

Fernando Namora

Imagem copiada aqui

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