Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade

sábado, 20 de dezembro de 2014

Veste-me

Veste-me de mãos
fortes espessas macias


veste-me

com a tua voz
doce meiga quente
transbordante d'amor e doçura

tapa-me as feridas
os silêncios
e vazios

apaga os muros
sombras
e temores



veste-me
de beijos.


Fátima Guimarães

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Soneto (Sonhei-te)


Sonhei-te tantos anos! Tantos anos!
Eras o meu ideal de amor e de arte,
buscava-te a toda hora e em toda parte
nessa ânsia inexplicável dos insanos.

Enfim, vencida pelos desenganos,
como quem nada espera que lhe farte
a alma faminta, exausta de sonhar-te,
abandonei-me do destino aos danos.

Surges-me agora, em meio da jornada
da Vida: vens do Inferno ou vens da Altura?
- Não sei: mas de ti fujo, apavorada!

E, em lágrimas, minha alma conjetura:
uma felicidade retardada
quase sempre se torna desventura.

Gilka Machado


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

As Amoras - O Outro Nome da Terra

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A um Jovem Poeta


Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


Manuel António Pina,  nasceu no Sabugal a 18 de Novembro de 1943. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Jornalista e escritor, com especial incidência na poesia e na literatura infanto-juvenil., tem também diversas obras de ficção, crónica e teatro.

É Comendador da Ordem do Infante D. Henrique e, para além dos vários prémios pela literatura infanto-juvenil e crónica, recebeu também o Prémio de Poesia da Casa da Imprensa, Prémio Gulbenkian, Prémio da Crítica, da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Camões.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Tabacaria - Alvaro de Campos e Mário Viegas


Alvaro de Campos dito por Mário Viegas

O grande Mário Viegas faria hoje 66 anos.
Grande em tudo que fez - encenador, actor e declamador - deixou-nos cedo demais. 
Foi distinguido com vários prémios, nacionais e estrangeiros, entre eles  o Prémio Garrett (1987) da Secretaria de Estado da Cultura.
Em 1993 recebeu a Medalha de Mérito do Município de Santarém  e em 1994 o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O mar dos meus olhos


                                                 Sophia diz que a sua poesia lhe acontece ...


Nasceu há 95 anos e é uma destas MULHERES


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Soneto de Devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

         Vinicius de Moraes


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

As Linhas da Mão


Deste canto de treva, esperas, surdo,
enquanto o céu corrói teu corpo escasso.
E sentes de ti mesmo o ofego gasto
pelo escoar do dia, o jogo amargo
de voltar das manhãs cheio de escuro.

Deste lado solar, desprezas, mudo,
o que sabes virá porque marcado
na morte que vais sendo, o sonho alçado
ao espaço que passa, este amor breve,
pois é feito de tempo e o tempo cede.

Eis tuas mãos. As suas linhas, cego,
o solitário sol, o rio vazio,
o saibro sob os pés, o choro inútil
e tudo o que feriste nos descrevem,
num rogo de beleza, sujo e puro.

Do centro crepuscular, dali tens tudo.

Alberto da Costa e Silva



Pelo conjunto de sua obra, foi atribuído a Alberto da Costa e Silva o Prémio Camões 2014.
O anúncio  foi feito oficialmente a 30 de Maio deste ano e a cerimónia de entrega do prémio acontecerá esta noite, no Rio de Janeiro, no Brasil.
O poeta venceu também em 1998 o Prémio Jabuti, principal galardão da literatura brasileira.

Alberto da Costa e Silva, enquanto ensaísta e historiador, é também reconhecido como grande conhecedor da cultura africana, tendo escrito diversos livros sobre o continente.


terça-feira, 28 de outubro de 2014


Abriste uma porta
Para um quarto fechado,
Sem janela e sem depois.
Mostraste-me a mim
Aquela que eu era,
Que eu de mim não sabia, 
E me procurava.
Volvidos que são
Os anos do tempo,
Continua fechado, suspenso,
O breve momento da espera.

Theo Leiroz Biel

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Luis de Camões

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos...
E para mais me espantar...
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Luís de Camões

Lisboa - Venerando Camões


Esta postagem, foi copiada do mural de Gonçalo Capitão, maravilhoso fotógrafo, autor desta fotografia.
Os versos são "comentário" de Maria Rodrigues
Tinha que publicar aqui. Obrigada a ambos.

Em destaque

orgasmo

fui ver o mar fez-se a mim fiz-me a ele as ondas desta vez tombaram de pé e espumaram de gozo  Bénèdicte Houart (no dia internacional do org...