Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade

sexta-feira, 18 de março de 2016

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –



o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 16 de março de 2016

Pretexto



Por que não cai a noite, de uma vez? 
— Custa viver assim aos encontrões! 
Já sei de cor os passos que me cercam, 
o silêncio que pede pelas ruas, 
e o desenho de todos os portões. 

Por que não cai a noite, de uma vez? 
— Irritam-me estas horas penduradas 
como frutos maduros que não tombam. 

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer 
o novelo das tardes enroladas.) 

Maria Alberta Menéres 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015




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 Nesse dia de Natal, ......................

A mãe chegou à cozinha. Os azulejos brancos reflectiam a luz da lâmpada fluorescente. A mãe tirou uma caneca do armário. Era uma caneca de loiça, gasta pelas lavagens da máquina, as cores esbatidas. Do frigorífico tirou um pacote de leite. Encheu a caneca e colocou-a no micro-ondas. Ficou a olhar para ela enquanto rodava, iluminada, como uma caneca que fosse bailarina num palco de vidro. Plim: o toque demasiado alto, demasiado estridente do micro-ondas. A caneca estava a escaldar, mas o leite estava apenas morno. Mexeu-o com uma colher. Então, sentou-se numa cadeira, ao lado da pequena mesa da cozinha onde pousou o cotovelo. E assim ficou, em pijama, de meias, a beber leite morno e a olhar para o ar.

José Luís Peixoto

In Abraço, Quetzal Editores, 2011

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sobre um Poema

Herberto Helder de Oliveira nasceu no Funchal. Faria hoje 85 anos.



Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Hélder

sexta-feira, 30 de outubro de 2015




havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer





  
e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos esquecemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no S.Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava órgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas
e dessa gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo
que já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
porque nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar

mas enquanto vai escorrendo dos nossos dedos o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios

Alice Vieira
in "Dois Corpos Tombando na Água"

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Navegando nas Emoções


Vladimir Kush


Ao brilho
do luar
Abrem-se as campânulas de silêncio
E o grito de alegria
Confunde-se com a magia das vagas quentes.

De súbito, o mar irrompe pelos sonhos
Transportando o olhar encantado
Da sereia bronzeada pela imensidão da noite.

Faz-se luz na enseada da vida
Os cânticos românticos
Vagueiam pelos recantos das grutas
Acordando aromas enfeitiçados
Acendem-se fogueiras de mitos
Aquecendo corações perdidos nas falésias do amor
E dança-se à volta da fronteira do desejo.

As estrelas iluminam a sensualidade dos actos
Inspira-se a pureza do universo
E na suavidade da corrente
Viajamos dentro da inocência dos sentidos
Reconstruindo sonhos antigos.

Jorge Viegas

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Poema simples

Amo-te!
Este é o poema mais simples que posso dizer
E o mais difícil de conseguir explicar.

Cala-te!
Não o estragues com mais palavras.
Beija-me e. (ponto)

Fernando Semana



Retirado  DAQUI









segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O DOS CASTELOS


A Europa jaz, posta nos cotovelos: 
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal, 
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

in "Mensagem" de  Fernando Pessoa
(8-12-1928)

Desenho de Lima de Freitas copiado aqui

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