Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Convite


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Vamos, ressuscitados, colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço...
Vamos àquele cabeço
Engrinaldar a esperança!
Temos a Primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!

Miguel Torga

sábado, 25 de abril de 2020

(a pretexto do silêncio) ...


(a pretexto do silêncio)
apetece-me gritar por socorro

(bastará murmurá-lo?)
quero não mutilar mais o que é meu
e isto é tão lato, tão lato como
a riqueza que desbarato.

não dizer o que escrevo,
não escrever o errado.

nem ao poeta é permitido o pecado.

que dizer de mim, casto,
escrevinhador do bonito e militante do errado?
silêncio e caldos de galinha,
essa rigorosa dieta à obesa parte do eu
esse maltratar do que é meu.

e meu também é este poema,
esta camisa limpa que vesti.
este falar alto
como se me ouvisse além do escrito:

nem eu! confesso-o
nem esta puta velha que faz merda atrás de merda,
este coirão das letras e dos ardores,
afinal meio escritor
afinal só mais um murmúrio:

socorro! - mas é em vão.
nem eu me ouço

enredado na construção
de só e apenas mais uma justificação
para a carnificina, a completa desilusão
que é abrir a cortina
e olhar
tanto que tive e tenho, se foram
e se vão.

afinal não gritei: sorri :-)
ouviu-me quem me leu
e se o perceber-me é mais complexo
que se lixe o nexo: escrevi!

e acudi ao intraduzí




Carlos Gil

domingo, 15 de março de 2020

As colunas partiam de madrugada

As colunas partiam de madrugada
Para o norte partiam para a morte
Partiam de Luanda flor pisada
Levavam morte de Luanda para o norte.

De Luanda partiam flor pisada
Colunas que levavam.
Luanda para o norte para a morte
De Luanda partiam madrugada.

 De Luanda madrugada para o norte
As colunas partiam
Levavam de Luanda a flor pisada
Para a morte do norte para a morte.

Partiam de Luanda madrugada
Colunas para o norte
Levavam morte de Luanda
Para o norte da morte flor pisada.

De Luanda partiam as colunas
Para o norte partiam flor pisada
De Luanda levavam para o norte
A morte de madrugada.

Partiam as colunas de Luanda
Levavam para a morte
A madrugada: flor pisada
Ao norte.

Manuel Alegre

15 de Março de 1961 data que marca o início da guerra Portugal-Angola, que terminou em 25 de Abril de 1974

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terça-feira, 2 de julho de 2019

Palavras para a minha mãe


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Lisboa



por tràs dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas

da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa

mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro

plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de iris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - Lisboa

lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres

e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves


al berto

domingo, 7 de abril de 2019

Encontro


Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.


José Sobral de Almada Negreiros (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de 1970)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019


«As recordações têm mais poesia do que as esperanças, tal como as ruínas são muito mais poéticas que o projecto de um edifício»

Jacinto Benavente, escritor espanhol que foi Prémio Nobel da Literatura em 1922



domingo, 18 de novembro de 2018

É tarde


É tarde
nenhum sono
repõe o que não vivi

agora

resta um único desfecho:
de novo acordar por dentro
e acordar sempre
até que volte a ser cedo.”

Mia Couto in "Raiz de orvalho e outros poemas"

sábado, 17 de novembro de 2018



Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Charles Chaplin

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi




Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono.




Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.

E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,

na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.

E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol.

E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

Mª do Rosário Pedreira

in A casa e o cheiro dos livros (Quetzal, 1996)
in Poesia reunida (Quetzal, 2012)

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