Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade

sábado, 1 de abril de 2017

Trova do mês de Abril















Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
Na esperança de um só dia.

Musa minha vem dizer o que nunca então disse
Esse morrer de viver por um dia em que se visse
um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
um só dia dos teus dias.

Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
musa minha onde contemplo os dias que se passaram
sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
a vida por um só dia.

Já muitas águas correram já muitos rios secaram
batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
Só os dias morreram em que era tão curta a vida
Por um só dia vivida.

E as quatros estações rolaram com seus ritmos e seus ritos.
Ventos do Norte levaram festas jogos brincos ditos.
E as chamas não se apagaram. Que na ideia a lenha ardia
Toda a vida por um dia.

Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas
A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:
Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida
Por um só dia vivida.

Manuel Alegre, in "Atlântico"

quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulher


A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher – cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

José Carlos Ary dos Santos

domingo, 25 de dezembro de 2016

Natal à Beira-Rio



É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira

sábado, 22 de outubro de 2016

Plátano

que nem o teu desespero
nas tardes frias de chuva
nem essas mãos a tremer
sobre as cartas que escrevi
nem os plátanos
que te deixam no outono
nem a vigília do inferno
nem a indolência do céu
nem a dor da madrugada
nem dúvidas
sobre o que nasce
certezas
sobre o que morre
nem memórias, por mais doces,
nem absolutamente nada
meu amor te dê a dúvida
de que te pertenço e fico
para lá do fim da noite
e que até no tempo infindo

só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam

Pedro Guilherme-Moreira



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Transfiguração da Montanha

1913 - Nasce no dia 19 de Outubro, no Rio de Janeiro, nome de baptismo Marcus Vinitius da Cruz de Melo Moraes

1932 - Publica pela primeira vez um poema de sua autoria na revista "A Ordem", edição de Outubro. A publicação, editada pelo intelectual católico e crítico literário Tristão de Athayde, apresenta um jovem e conservador Vinicius, com um poema bíblico de 152 versos intitulado “A transfiguração da montanha”.

Vinicius de Moraes



E uma vez Ele subiu com os apóstolos numa montanha alta
E lá se transfigurou diante deles.
Uma auréola de luz rodeava-lhe a cabeça
Ele tinha nos olhos o paroxismo das coisas doces
Sua túnica tinha a alvura da neve
E nos seus braços abertos havia um grande abraço a toda a humanidade
A natureza parou estática
Só os pássaros cantavam melodias
Melodias doces como os olhos Dele
E veio uma nuvem grande e cobriu os apóstolos
E se ouviu uma voz:
"Este é meu filho bem-amado, em quem tenho posto todas as minhas
complacências; escutai-o!"
E os apóstolos escutaram a grande voz da nuvem, e se prostraram
E quando eles ergueram os olhos não havia mais nuvem
A natureza já não estava mais parada
Tudo continuava
Como os olhos Dele continuavam doces
E Ele lhes disse:
"Não faleis desta visão até que o filho do homem ressuscite dos mortos"
E lançando os olhos em torno Ele viu a terra embaixo
Viu a terra do alto da montanha
E viu a outra montanha do outro lado da terra
Era uma pedra imensa
Dominava tudo
De baixo, a terra olhava para a montanha
Admirada!
Ela tinha sido precipitada para cima
Pelas grandes forças da natureza
Na sua base, onde a floresta escorre em seiva
Onde pelos grandes troncos descem óleos vermelhos
E onde as folhas berram um cheiro enorme de mato bravo,
Os pássaros viviam na felicidade profunda de seus cantos
Grandes cobras dormiam nos desenhos de sol
E as borboletas eram fecundadas em pleno vôo. Às vezes vinha o vento
Entrava na selva
E levava até em cima um cheiro enorme de mato bravo.
A montanha tinha em si toda a natureza
Tinha um rio que dormia nos desenhos de sol
E que de repente acordava e pulava nas cascatas.
Ele viu tudo
Viu a montanha e viu a floresta
Viu principalmente a floresta
E amou muito a montanha
A montanha que possuía toda a natureza
Menos Ele
Seus divinos lábios entreabriram-se num sorriso
E ele falou para Deus:
"Dia virá em que hei de ter aquela pedra por trono
e lá de novo eu me transfigurarei!"

Depois tudo mudou
O mundo girou sempre, andou sempre
O mundo judeu errante.
Não parava na catástrofe
As guerras se sucediam
Os flagelos se sucediam
Andavam, sempre para a frente, sempre para a frente
Flagelos judeus errantes
O grande sentimento era o ódio
Ódio de tudo
Ódio grande
De corações pequenos
Os homens só tratavam de si
As mulheres tratavam de todos
Não mais a beleza da vida
Não mais o amor.
O tigre desperta e mata tudo
Mata os pequeninos que choram de medo
Mata as mães que têm os olhos despertos nas grandes noites da vida
E os pais que têm a fronte enrugada pelas preocupações.
Mata tudo.
Quer matar até Deus
Porque sabe que Ele vê todas as coisas
Vê os pequeninos que morrem
Vê os pais e as mães que morrem
E porque tem medo da Sua justiça.
Nas grandes sociedades havia muitas festas
Havia muitas festas e muitos vícios
Os homens bebiam para esquecer o dia de amanhã
E bebiam no dia de amanhã para esquecer o dia que passou
As mulheres bebiam para imitar os homens
E fumavam também
Não mais a arte
Não mais a poesia
A arte está na alma dos homens que bebem
A poesia canta a arte dessas almas bêbadas
Que é da poesia profunda da natureza?
Que é da arte da natureza?
Morreu.
Morreu com a alma do homem.
A alma do homem é como o amor morto
Onde todas as coisas bóiam à superfície
Ai! O tempo em que a alma do homem era o oceano
O grande oceano que guarda pérolas e possui vegetações esquisitas
E onde a luz bóia à superfície!
Mas o mundo mudou.
Ele foi esquecido
A transfiguração foi esquecida
Os homens só se lembraram Dele
Ou para ofendê-lo enquanto viviam
Ou para temê-lo covardemente na hora da morte.

Mas uns houve que não perderam o sentido da vida
Que guardaram na alma a grande simplicidade das coisas boas
Uns, que perdoavam
Uns, que socorriam e sorriam para a morte gloriosa
Eles tinham dentro da roupa preta que os vestia
A alma branca dos que são os bem-aventurados de Deus
Eles eram poucos
Foram aumentando
Pregaram aos outros o sentido da vida que eles possuíam
O mundo não escutava
Tinha a surdez profunda da inteligência
A vontade perseverante contudo fez efeito
E um dia, alto, formidável
A bela cabeça nas nuvens
E os pés na rocha bruta
Ele surgiu num esplendor de divindade
Transfigurado
Os braços abertos como num abraço
E os olhos suaves olhando a terra embaixo
Apareceu
Branco e enorme
Sobre a rocha escura e enorme
A rocha e Ele
Se unificaram na mesma beleza
O grupo formidável
Vivia a impressão
Da grande cena bíblica
A pedra que guardava a floresta
E o grande gigante meigo
Era como a cena bíblica
Da fundação da Igreja
A pedra enorme
Era a própria força espiritual de são Pedro
Posta na matéria
A base
A pedra da Igreja
E em cima, Ele, Senhor de todas as coisas
Belo e agigantado
Olhando as coisas embaixo
Com o olhar bom do que foi Homem
Com o amor do que […] o único Deus.
Senhor!
Tu estás lá
E tu estás em todos os lugares
E ouço a tua voz na música do mundo
E sinto a tua mão na plástica das coisas
Tu és o ponto de partida
Tu és o caminho
E és o fim do caminho
És o cardo que fere os pés
E a grama macia que os repousa
E a grande tempestade de vento
E o ar parado que sereniza.
És o pranto dos olhos
E o riso da boca
És o sofrimento do mundo
Numa promessa de eterna felicidade
És Deus
Deus que vê todas as coisas e a todas dá remédio
E que é o único perdão:
         Amém.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

The Times They Are A-Changin’ - Bob Dylan, Nobel da Literatura 2016


Come gather ’round people
 Wherever you roam
 And admit that the waters
 Around you have grown
 And accept it that soon
 You’ll be drenched to the bone
 If your time to you is worth savin’
 Then you better start swimmin’ or you’ll sink like a stone
 For the times they are a-changin’

 Come writers and critics
 Who prophesize with your pen
 And keep your eyes wide
 The chance won’t come again
 And don’t speak too soon
 For the wheel’s still in spin
 And there’s no tellin’ who that it’s namin’
 For the loser now will be later to win
 For the times they are a-changin’

 Come senators, congressmen
 Please heed the call
 Don’t stand in the doorway
 Don’t block up the hall
 For he that gets hurt
 Will be he who has stalled
 There’s a battle outside and it is ragin’
 It’ll soon shake your windows and rattle your walls
 For the times they are a-changin’

 Come mothers and fathers
 Throughout the land
 And don’t criticize
 What you can’t understand
 Your sons and your daughters
 Are beyond your command
 Your old road is rapidly agin’
 Please get out of the new one if you can’t lend your hand
 For the times they are a-changin’

 The line it is drawn
 The curse it is cast
 The slow one now
 Will later be fast
 As the present now
 Will later be past
 The order is rapidly fadin’
 And the first one now will later be last
 For the times they are a-changin’


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Saudade

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
  
De quem é esta saudade,
de quem?
  
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
  
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
  
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?

                   Gilka Machado

terça-feira, 26 de julho de 2016

Congratulations Mick Jagger


Faz hoje 73 anos.
Nasceu na cidade de Dartford, Kent, no sudeste da Inglaterra, com o nome Michael Phillip Jagger.
Congratulations and long live Sir Mick Jagger






quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cat Stevens





Faz hoje 68 anos.
Nasceu em Londres e recebeu o nome de Steven Demetre Georgiou. Ficou conhecido como Cat Stevens, cantor e compositor britânico. Converteu-se ao islamismo, mudou de nome para Yusuf Islam e abandonou a música em 1978 ...

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Invictus

Nelson Rolihlahla Mandela nasceu há 98 anos em Mvezo - África do Sul



Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishment the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley 
Gloucester-23 de Agosto de 1849 - Woking-11 de Julho de 1903


Tradução do poema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ...

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