Palavras ditas ...
Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade
quarta-feira, 19 de junho de 2013
A falta de um beijo
Sinto a falta
do teu beijo,
nas bocas que se
procuram,
na avidez do desejo.
Daquele beijo
amado,
que tanto diz sobre ti,
beijo rápido, demorado,
que sinto entrar
em mim.
Do beijo
reinventado
que tudo faz esquecer,
que me leva a
querer a vida,
pelo qual quero
morrer.
Do teu beijo
apetecido
no desvario dos
sentidos,
que me conduz pela mão
por caminhos
já conhecidos.
Do beijo doce,
salgado,
que percorre todo
o meu ser,
desfazendo-se no meu
que em ti quer renascer.
Sinto a falta do teu beijo em mim.
António Barroso Cruz
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Minha pátria é a língua portuguesa
13 de Junho de 1888, nascimento de Fernando Pessoa, poeta, filósofo e escritor português. Um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal.
Bernardo Soares
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie — nem sequer mental ou de sonho —, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida. [...]
Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é — não — a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d´aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m´a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
28/01/2013
In Livro do Desassossego, fr. 259 (Texto publicado originalmente em "Descobrimento", revista de Cultura n.º 3, 1931, pp. 409-410, transcrito do "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), numa recolha de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha; ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, p. 16-17. Respeitou-se a ortografia da época de Fernando Pessoa.
Sobre o Autor:
Bernardo Soares, um dos heterónimos de Fernando Pessoa (1888-1935), poeta português, nascido em Lisboa, considerado a maior figura literária do século XX, teve grande influência no chamado movimento futurista ou modernista. Colaborou em prosa e verso em várias publicações e dirigiu as revistas "Orfeu" e "Atena". Autor de Mensagem, usou ainda heterónimos para várias obras suas: Poesias (Álvaro de Campos), Poemas (Alberto Caeiro) e Odes (Ricardo Reis).
Textos de Autores Lusófonos sobre a língua portuguesa, de diferentes épocas copiado aqui
terça-feira, 4 de junho de 2013
Uma mulher quase nova
Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos
vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto
quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta
o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora
Mário Dionísio
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Papoilas
estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas
o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro
aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me
qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos
coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro
para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras
Ana Mafalda Leite
Imagem copiada aqui
segunda-feira, 27 de maio de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Plano
Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos, que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
Nuno Júdice
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Os Amantes Obscuros
Nossos sentidos juntos fazem chama:
e as fantasias nossas vão soltar
os desejos desertos de quem ama
e em verso ou coração se quis tornar.
Nossos sentidos são matéria prima
de um canto que é mais leve do que o ar;
o mundo todo não nos adivinha:
somos sombra sem luz, sequer luar.
Que o corpo quebre a noite desolada,
que o corvo ceda a voz à escuridão:
mil luzes são o nome da amada;
quem se perdeu no verso é sem perdão.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Orações do amor
... ... ... ... ...
XXI
Dizem as conchas do mar:
«Não queiras que desça ao fundo
Quem nos deseja roubar.»
E as águas dizem ao mundo:
«Olha, não mandes sondar
O nosso abismo profundo.»
Como as conchas, como as águas,
Digo à minha estremecida:
«Não queiras roubar-me a vida,
Não sondes as minhas mágoas...»
António Fogaça
Imagem retirada daqui
domingo, 5 de maio de 2013
Mãe
Mãe a palavra universal a palavra mais consensual da humanidade
Nem Deus… Deus é de uns e não de outros Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos
A mãe não a mãe é de todos sem excepção
A mãe é de todos e é só nossa a mãe é do crente e do ateu a mãe é do pobre e do rico do sábio e do ignorante
A mãe é dos poetas dos filósofos e artistas dos bons e dos maus a mãe é do amigo e do inimigo
Não há mãe de uns e não de outros não há ninguém sem mãe não há mãe de ninguém
A mãe é de toda a gente a mãe é de cada um a mãe é do mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto
A mãe é do longe e do perto da água e do fogo do sangue e das lágrimas da alegria e da tristeza da doçura e da amargura da força e da fraqueza
A mãe é certeza e aventura é medo e firmeza dúvida e crença a haste que se ergue no céu ou se aninha rente ao chão para que a morte a não vença
A mãe é a outra parte de nós
Sem mãe somos metade sem mãe nada é exacto igual a um igual a infinito onde se tocam princípio e fim onde os tempos se encontram sem tempo presente passado e futuro
A mãe é tudo a mãe é de mais a mãe é o máximo
A mãe é a lágrima que não seca no sorriso que não se apaga a nuvem que chove no sol que aquece a mensagem da luz e da harmonia e dos acordes matinais com que abre o nosso dia
A mãe levanta-se no orvalho das lágrimas da noite e mesmo cansada não perde a voz nem a cor da madrugada
A mãe é a voz que se não teme a voz que se confia a voz que tudo diz nas consoantes do grito nas vogais do silêncio nos abismos da agonia
Mãe
Primeira palavra a nascer a última palavra a morrer a mãe é sempre a mesma a mãe nunca é outra na sua infinita diferença
A mãe é criação a mãe é sempre o fim da obra-prima inacabada a mãe nunca é ensaio nem esboço nem projecto
A mãe é um milagre no milagre do mundo o único milagre concebido neste mundo real e concreto
Chora para que outros riam ri para que a dor a não mate mistura-se com a luz das estrelas para vencer a escuridão devora as nuvens por um raio de sol
A mãe é beleza e poesia aurora fulgurante aurora adormecida a mãe é bela porque é simples a mãe é simples porque nasce da silenciosa lógica da vida
A mãe é o que é a mãe é a fragilidade da semente a força do tronco a beleza da flor a doçura do fruto o dom de renascer
A mãe é tudo numa coisa só
Amor
adão cruz
| (eurodeputada italiana Licia Ronzulli) |
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Uma carta é suficiente
para a Xia
uma carta é suficiente
para me transcender e enfrentar-te
quando falas
e assim que o vento sopra para o passado
a noite utiliza
para escrever um verso secreto
que me relembra que
cada palavra é a última palavra.
e o gelo no teu corpo
se dissolve num fogo mitológico;
nos olhos de quem executa
a fúria torna-se pedra.
dois pares de caminhos-de-ferro
inesperadamente sobrepostos, os
insectos embatem nas lâmpadas
de luz, um sinal eterno
que persegue a tua sombra.
Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste
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