Palavras ditas ...

Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo."
Carlos Drumond de Andrade

domingo, 31 de janeiro de 2021

Eu te amo

 


Ah, se já perdemos a noção da hora

Se juntos já jogamos tudo fora

Me conta agora como hei de partir

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios

Rompi com o mundo, queimei meus navios

Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão

Se na bagunça do teu coração

Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido

Meu paletó enlaça o teu vestido

E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos

Teus seios inda estão nas minhas mãos

Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta

Te dei meus olhos pra tomares conta

Agora conta como hei de partir

Chico Buarque, Telma Costa

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Soneto CXXXIII



Doces e claras águas do Mondego,
Doce repouso de minha lembrança,
Onde a comprida e pérfida esperança
Longo tempo após si me trouxe cego,
De vós me aparto, sim; porém, não nego
Que inda a longa memória, que me alcança,
Me não deixa de vós fazer mudança;
Mas quanto mais me alongo, mais me achego.
Bem poderá a Fortuna este instrumento
Da alma levar por terra nova e estranha.
Oferecido ao mar remoto, ao vento.
Mas alma, que de cá vos acompanha,
Nas asas do ligeiro pensamento,
Para vós, águas, voa, e em vós se banha.

Luís Vaz de Camões

quarta-feira, 10 de junho de 2020

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Convite


       Copiado aqui

Vamos, ressuscitados, colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço...
Vamos àquele cabeço
Engrinaldar a esperança!
Temos a Primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!

Miguel Torga

sábado, 25 de abril de 2020

(a pretexto do silêncio) ...


(a pretexto do silêncio)
apetece-me gritar por socorro

(bastará murmurá-lo?)
quero não mutilar mais o que é meu
e isto é tão lato, tão lato como
a riqueza que desbarato.

não dizer o que escrevo,
não escrever o errado.

nem ao poeta é permitido o pecado.

que dizer de mim, casto,
escrevinhador do bonito e militante do errado?
silêncio e caldos de galinha,
essa rigorosa dieta à obesa parte do eu
esse maltratar do que é meu.

e meu também é este poema,
esta camisa limpa que vesti.
este falar alto
como se me ouvisse além do escrito:

nem eu! confesso-o
nem esta puta velha que faz merda atrás de merda,
este coirão das letras e dos ardores,
afinal meio escritor
afinal só mais um murmúrio:

socorro! - mas é em vão.
nem eu me ouço

enredado na construção
de só e apenas mais uma justificação
para a carnificina, a completa desilusão
que é abrir a cortina
e olhar
tanto que tive e tenho, se foram
e se vão.

afinal não gritei: sorri :-)
ouviu-me quem me leu
e se o perceber-me é mais complexo
que se lixe o nexo: escrevi!

e acudi ao intraduzí




Carlos Gil

domingo, 15 de março de 2020

As colunas partiam de madrugada

As colunas partiam de madrugada
Para o norte partiam para a morte
Partiam de Luanda flor pisada
Levavam morte de Luanda para o norte.

De Luanda partiam flor pisada
Colunas que levavam.
Luanda para o norte para a morte
De Luanda partiam madrugada.

 De Luanda madrugada para o norte
As colunas partiam
Levavam de Luanda a flor pisada
Para a morte do norte para a morte.

Partiam de Luanda madrugada
Colunas para o norte
Levavam morte de Luanda
Para o norte da morte flor pisada.

De Luanda partiam as colunas
Para o norte partiam flor pisada
De Luanda levavam para o norte
A morte de madrugada.

Partiam as colunas de Luanda
Levavam para a morte
A madrugada: flor pisada
Ao norte.

Manuel Alegre

15 de Março de 1961 data que marca o início da guerra Portugal-Angola, que terminou em 25 de Abril de 1974

imagem copiada aqui

imagem copiada aqui



   

terça-feira, 2 de julho de 2019

Palavras para a minha mãe


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Lisboa



por tràs dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas

da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa

mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro

plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de iris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - Lisboa

lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres

e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves


al berto

domingo, 7 de abril de 2019

Encontro


Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.


José Sobral de Almada Negreiros (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de 1970)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019


«As recordações têm mais poesia do que as esperanças, tal como as ruínas são muito mais poéticas que o projecto de um edifício»

Jacinto Benavente, escritor espanhol que foi Prémio Nobel da Literatura em 1922



Em destaque

orgasmo

fui ver o mar fez-se a mim fiz-me a ele as ondas desta vez tombaram de pé e espumaram de gozo  Bénèdicte Houart (no dia internacional do org...