Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... Acho que a poesia está contida nisso tudo." Carlos Drumond de Andrade
sábado, 24 de abril de 2021
António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…
Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho
Nem até
Café.
quando o medo puxava lustro à cidade eu era pequeno vê lá que nem casaco tinha nem sentimento do mundo grave ou lido Carlos Drummond de Andrade
os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens e flores vermelhas e nem lustro de cera havia para que o soubesse na madeira da infância sobre a casa
a Mãe não era ainda mulher e depois ficou Mãe e a mulher é que é a vagem e a terra então percebi a cor e a metáfora
mas agora morto Adamastor tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada das mambas cuspideiras nos trilhos do mato falemos dos casacos e do medo tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes e as espigas de bronze as rótulas já não tremulam não e a sete de Março chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando a natureza e o chão no parnaso das balas falemos da madrugada e ao entardecer porque a monção chegou e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos num silêncio de rãs a tisana do desejo enquanto os tocadores de viola com que latas de rícino e amendoim percutem outros tendões de memória e concreta a música é o brinquedo a roda e o sonho das crianças que olham os casacos e riem na despudorada inocência deste clarão matinal que tu clandestinamente plantaste Aos Gritos
todos os outros minto: minto à musa, minto à poesia, à rima e até a mim um trauteio invento: digo-me vate, faço puzias, em poemas sou profícuo e vasto. mas escondo-me por vergonha no dia que da poesia fizeram monumento. nesse dia, faça chuva ou sopre vento riam-se as musas e assoprem-me a rima, nesse dia, poesia, eu não faço.
aquele que dizem já ser amanhã, dia em que se rasga a má rima e pisa-se o descaramento de sem vergonha dizer, com lamento, deste dia não ser meu e, até se rimar, até disso, hoje eu, por pudor, rasgo este papel e guardarei silêncio.
Amei-te sem saberes No avesso das palavras na contrária face da minha solidão eu te amei e acariciei o teu imperceptível crescer como carne da lua nos nocturnos lábios entreabertos
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar
No contorno do fogo desenhei o teu rosto e para te reconhecer mudei de corpo troquei de noites juntei crepúsculo e alvorada
Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio
Mia Couto, em “Raiz de Orvalho e outros poemas”. Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
Fotografia de Jean Yves Donnard - Verão 2009 em Belo Horizonte
Doces e claras águas do Mondego, Doce repouso de minha lembrança, Onde a comprida e pérfida esperança Longo tempo após si me trouxe cego, De vós me aparto, sim; porém, não nego Que inda a longa memória, que me alcança, Me não deixa de vós fazer mudança; Mas quanto mais me alongo, mais me achego. Bem poderá a Fortuna este instrumento Da alma levar por terra nova e estranha. Oferecido ao mar remoto, ao vento. Mas alma, que de cá vos acompanha, Nas asas do ligeiro pensamento, Para vós, águas, voa, e em vós se banha.